segunda-feira, 19 de março de 2012

Despedida



E eu já estava indo,
quando escolhi
ficar mais um pouquinho...

Impressão de adeus,
impermanência,
tudo o que vivo hoje
é despedida.

Seguindo em frente,
desapegando-me sempre,
pudesse de repente
o minuto ser paralisado
e, assim, o instante,
pudesse ser capturado
para sempre!

E, dessa maneira,
permitisse
um olhar para o presente,
e, então,
ao desfrutar de cada segundo,
ou melhor, cada milésimo de segundo,
sentir, todo o agora entrando...
e eu, sendo absorvida pela vida,
todos os meus poros
da carne e do espírito
se fundindo,
para que, enfim, possa me fartar
do momento vivo,
que antes, nunca percebi ,
embora estivesse aqui
todo tempo aguardando
o despertar.


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O Piano




Precisei visitar minha infância
e lá, encontrei as lacunas
quando sonhava, menina,
em me tornar bailarina.

Concertos e ballets inesquecíveis
pairaram na memória
de meus cinco anos,
e todos os sonhos e certezas,
perdidos no tempo longínquo,
carreguei comigo.

Pianista tornei-me,
deixando meu corpo no aguardo,
enquanto meus dedos criavam
sons e notas perfeitas.

Exames, partituras transformaram
meu piano no único símbolo
de uma menina frustrada
que buscava realizar seu desejo.

E tanto tempo passou
tantas melodias vieram
mas não eram, nem de perto
aquelas que esperava tocar...
(ou dançar)

Agora, o que faço com os sonhos
que não combinam com o corpo
que quero expressar?
Preciso encontrar o desejo
daquela menina sofrida
que não pôde viver nesta vida
o que sempre almejou realizar.


Erin Lagus

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Um fiapo




Um fiapo de luz sobrou,
é só o que liga
o passado ao que sou.

Quem fui...?
Uma solidão doída!

Tendo que encontrar algo...

Mergulhada num sopro de fracasso,
mesmo assim
permanecer em pé.

Sustentei, sem queixas
a dor do cristal
que se partiu.

Urinei estilhaços...
fiquei por longo tempo
a me repetir,
qual disco quebrado...
tocando o mesmo verso.

Infinitamente.

Mas assim estive,
a inspiração era amarga,
ácida.

E dela tirei meu alimento,
da sombra em que me encontrava
e não havia como sair.

Apelei para os deuses,
mas neles, não havia salvação;
ela estava aqui dentro,
e só corroía, o tempo todo.

Todo o tempo!

Hoje estou a beira
de um penhasco,
preparada para saltar,
alçar voo...
retroceder agora,
não posso.
Corro o risco
de prender-me a ilusões
que moram mortas
no cemitério das paixões.


Erin Lagus

sábado, 30 de outubro de 2010

Tarde de sábado


Quatro horas
sábado molhado
mundo calado
numa pausa da tarde

Mundo estático
uma obra de arte
quatro da tarde
tudo molhado

Céu branco
suspenso em água
a arte é agora
às quatro da tarde


Tenho uma mágoa
sábado calado
tudo parado
angustiado.

Quando Erin Lagus era Maria do Carmo Tavares Moreira, em 16/11/72

sábado, 16 de outubro de 2010

Póstuma




Por que não me disseste antes?
(Mas disseste...)

Por que só agora sei, e estás tão longe...?
Por que perder um amor assim,
abortado por empecilhos
que nem eram?
(Talvez, na hora fossem!)
Poderia ter sido vivido na essência,
posto ser verdadeiro em sua chama.

(Como saber?
Permanece, como lacuna, suspensa no tempo!?)

E agora, como encontrar-te?
Agora, como responder-te
o que deixei de perceber
naquele instante?
E ele passou,
se foi, como foste ...
num relâmpago de outono!

Erin Lagus

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Rio



E que este rio carregue
toda amargura
e me leve,
para a outra margem,
com doçura.

Fluo, embalada
por ele e pela vida,
há silêncio e paz
na travessia.

Mesmo desconhecendo qual destino,
vou segura, deixando o passado no caminho,
abençoo cada pedra, por onde sigo,
solitária e certa
de ser este meu desígnio.

Já pedi ao vento
que varresse
todas as dores da memória, ainda viva,
mas preferi ao tempo, tal incumbência confiar,
receava que, em sua fúria,
o vento banisse os beijos
que comigo vou guardar.

Mas o tempo, corre quando não se quer
e custa a passar na urgência,
então, que leve, este rio,
minha tormenta,
deixando-me entregue
à outra margem,
que me espreita.


Erin Lagus

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Segredo


Névoa pura e nova chega,
qual brisa noturna, afaga...
sussurra mel,
apazigua dúvidas.

Penetra.
Intermitente orvalho
torna-se bálsamo que,
gota a gota
cura velhas cicatrizes.

Em seu colo morno
descanso a alma,
farta de penas.

Experimento seu gosto...
é de amoras frescas,
recém apanhadas no pé.
Tem a mania de acordar meus sorrisos,
esquecidos nas manchas do passado,
e com um toque imperceptível,
por ser manso,
revela verdes horizontes
e um negro dilema.

Mas, num enlevo atrevido
e inconsequente,
deixo-me ir,
como quando menina
ao correr na areia
para encontrar o mar.

Erin Lagus